Capitão e ídolo, o atleta está a um passo de deixar a equipe sob olhares críticos e desapontados
Após alguns dias longe, consegui voltar a assistir a Atalanta que tanto amo. E, nossa, que exibição! Nesse domingo, 03 de janeiro, La Dea mostrou que ainda amassa quem vê pelo caminho com uma bela vitória por 5 a 1 diante do Sassuolo. No entanto, o que me chamou a atenção foi uma pergunta levantada no decorrer do jogo: “Papu Gomez ou Gian Piero Gasperini: quem manter?” e como eu já queria escrever sobre o assunto, pensei em destrinchar a resposta.
PAPU GOMEZ
Quando se joga em time grande, a dificuldade para se tornar reconhecido ou ídolo é maior. Quando se joga em times mais modestos, o amor à camisa e o amor à cidade muitas vezes prevalece acima de qualquer habilidade ou a falta dela. Existem, então, os que justificam toda e qualquer idolatria, como é o caso de Papu Gomez.
Assim como vemos na NBA, os times de futebol também escolhem e contratam uma peça para construir um time vencedor à sua volta. É verdade que esse trabalho atual da Atalanta começou na base, logo após um rebaixamento em 2010, mas é importante falar do que vinha se tornando o time principal. Desde 2014 na Atalanta, Papu chegou como um cara comum, custando pouco mais de quatro milhões de euros, sem pretensões do futuro e sem imaginar o que a mudança de país o traria de bom. O 10 da Dea serviu, então, como o pilar para um projeto que só começaria em 2016, com a mudança de treinador e de mentalidade.
Em seis anos em Bergamo, Papu Gomez não acumula nenhum troféu físico. Porém, ser peça decisiva para a formação da competitividade da equipe é um dos prêmios que poucos atletas tem o gosto de sentir. Nesse período, ele atuou em 252 partidas, marcou 59 gols e distribuiu 71 assistências, foi à Champions League em dois anos consecutivos, as duas primeiras jornadas da Atalanta na competição, após alcançar a melhor colocação da história da Dea na Série A.
GIAN PIERO GASPERINI
Gian Piero Gasperini fez da Atalanta a sua casa por um tempo maior que os clubes anteriores. São 208 jogos no comando da equipe, os quais evidenciaram que a confiança, estratégia e conhecimento sempre foram os três fatores que definiam sua ideia, seu projeto.
Conhecida (e nomeada) como a melhor base da Itália pela Federazione Italiana Giuoco Calcio, algo que tem como responsável o presidente Antonio Percassi, La Dea apresentou uma ideia à Gaspe e ele já sabia o que faria. Desde que chegou ao time, o treinador, que é responsável por nomes como Diego Milito, passou a incorporar rapida e confiantemente as peças do “Primavera” ao elenco principal, afinal os “moleques” haviam, em algum momento, dado cerca de 17 títulos de base à instituição.
Essa situação passou um pouco pela vontade de “ter em casa”, mas também pela vontade de solidificar toda a equipe para alçar maiores voos. Se no Gênoa, seu clube anterior, ele havia conseguido se livrar do rebaixamento e chegar a um quarto lugar e possível classificação à Champions (a qual perdeu nos critérios de desempate), na Atalanta ele queria mais e, convenhamos que, considerando o histórico, o treinador possuía agora um arsenal melhor para trabalhar.
Dito e feito. Com a estrutura proporcionada por Percassi após o rebaixamento da Atalanta em 2010 e retorno à Série A no ano seguinte (com título, aliás), com o Centro de Treinamento e, mais tarde, a aquisição do estádio Atleti Azzurri d’Italia, que em 2020 foi reformado e se tornou Gewiss Stadium (naming rights), Gasperini formou sua base com Papu Gomez, Josip Ilicic, Robin Gosens, Mattia Caldara, Bryan Cristante, Pierluigui Gollini, entre outros, que estão ou não no elenco atual.
Com uma diversidade de atletas “sem brilho”, vindos da base ou por meio de observação no mercado, o arsenal da Dea foi melhorando ano após ano. Esse trabalho, com um sistema variante e incisivo geralmente com 3–4–1–2, levou a equipe para duas Europa League e duas Champions League, tendo passado da fase de grupos em ambas competições, alcançando até as quartas de final no maior torneio europeu de clubes, perdendo para o Paris Saint-Germain em 2019/2020. Na atual temporada, classificado às oitavas outra vez, terá outro adversário de peso, o Real Madrid.
ATALANTA
Apresentada as peças da discussão, trago o mais importante: A Atalanta. Como um time modesto da pequena Bergamo, utilizando as cores da já consagrada Inter de Milão, alcançou tudo o que alcançou desde 2010? Foi com a gestão? Com Papu? Com Gasperini? Foi a junção de tudo? Foi um projeto estruturado que, com as peças corretas e acreditadas, vingou?
Há uma frase que torcedores gostam de dizer quando um cara querido deixa o clube, de forma negativa, é claro. Papu saiu brigado com Gasperini no dia 1º de dezembro após a classificação às oitavas da Champions League: publicou no Instagram uma mensagem para os fãs, em descontentamento com o modo como o técnico o vinha utilizando, o qual visava melhorar e potencializar o capitão após estada com a Argentina em novembro. A partir daí, a imprensa pipocou motivos e acontecimentos, incluindo versões de agressão física entre os dois, dando palco para a “revolta” de Gomez enquanto Gasperini amenizava tudo se baseando na frase-de-torcedor “Nenhum atleta é maior que o clube onde ele atua”. E, é isso mesmo.
Papu Gomez foi a primeira ideia de crescimento da equipe, principal atleta e rosto da Atalanta desde o início. No entanto, assim como ele viu rotações, reparações e contratações para o elenco, talvez ele seja a “vítima” da vez. Com 32 anos, sendo um atleta que já atuou em todos os espaços do campo, talvez a visão que gere o time não seja tão positiva. Apesar da desavença com o técnico e alguns jogos fora, ele retornou à equipe, jogando normalmente no lugar que lhe deu a ascensão ao futebol. Porém, esse retorno pode ser que dure menos do que ele imagina, já que na partida diante do Sassuolo ele não estava nem no banco. É um tanto assustador abdicar do seu principal atleta em momentos tristes, imagina em momentos felizes e/ou decisivos, mas é pouco provável que ele queira permanecer. Há boatos de que o FC Cincinnati, da Major League Soccer, esteja disposto a contratá-lo.
Com isso, imaginamos como atletas vem e vão, ídolos ou não. A gestão administrativa anda lado a lado com a gestão técnica, sendo que essa última é um pouco mais complicada por situações como essa, afinal ninguém é de ferro. Por isso, fica claro para mim como profissional, mas também como torcedora, que a manutenção do treinador é mais justa e interessante para uma equipe que ainda está se desenvolvendo, mas que já colhe frutos do espaço conquistado na Europa.
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